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Pedrinhas azuis (Conto)

Melissa ajuntava pedrinhas azuis na rua vermelha ao fim da tarde. Vi-as destacar-se por causa dos raios da laranja do sol, como mil pontinhos no chão, brilhando como as estrelas das constelações no céu escuro da noite. Colocava dezenas das pedrinhas em sua cesta de barbante e madeira, e cantarolava feliz as cantigas de roda enquanto outras crianças brincavam seus últimos momentos do dia, antes que as mães gritassem seus nomes apenas uma vez.

Havia um mês que o pai de Melissa morrera. Ela ignorava tal fato porque a mãe dizia que ele fizera uma viagem muito longa, mas que estaria de volta em breve. Melissa amava muito a companhia do pai, de brincar de bola ao por do sol, comprar sorvete às duas da tarde e contar estrelas à noite. Antes de dormir ela implorava por histórias de terror, mas ele só contava sobre princesas que iam a bailes fantasiosos. Uma vez contou a história da Cinderela e a observação que Melissa fez o surpreendeu. “Se todas as coisas, o vestido, os cavalos, a carruagem, só durariam até à meia noite”, a menininha disse enrolada nos lençóis, “por que apenas o sapatinho de cristal ficou? Ele não deveria ter sumido também?”. Gregório se admirou da questão e acariciou os cabelos da filha “Você é uma menina muito inteligente”.

Melissa catava as pedrinhas pensando na volta de seu pai, ansiosa para viver com ele as simples aventuras que costumeiramente faziam. Sentia saudade, mas sabia que ele ia voltar. Só não entendia porque sua mãe parecia tão triste, e às vezes até chorava. Melissa pensava que sua mãe amava tanto Gregório a ponto de não suportar um instante de sua ausência, e quase se sentiu mal por não sentir também tanto a sua falta.

Melissa ajuntava as pedrinhas porque a mãe havia pedido alguns dias atrás. No terceiro dia depois de fazer isso por crepúsculos seguintes, a menina ousou perguntar o motivo daquilo. “Estou preparando uma surpresa para o seu pai, quando ele voltar. Vou preparar um lindo jardim com essas pedrinhas”. Melissa ficou feliz com a resposta e não questionou mais, fazia com vontade sua missão, pegava todas as pedrinhas cintilantes que via, e quando acabaram as brilhantes azuis de sua rua, procurou nas outras ruas do quarteirão. A cestinha enchia rapidamente, até que finalmente a sua mãe disse que bastava. Deu-lhe então uma nova missão: que ajuntasse penas de urubu. “Para o jardim também?”, a menina inocentemente perguntou. “Sim”, respondeu acariciando os cabelos lisos e negros da filha. “Vou fazer um daqueles sinos de vento, e colocarei as penas escuras como enfeite”. Se Melissa fosse mais inteligente, ou simplesmente mais velha, não entenderia porque um símbolo de espantar espírito seria feito com penas de uma ave que é sinal de morte, apodrecimento e coisas ruins.

Com a mesma cesta presa no braço, andou ainda mais longe no bairro, procurando pelas penas negras de cheiro ruim. Em um dia, achava apenas três. Passou ainda três semanas nessa busca, quando finalmente sua mãe disse que era suficiente, e Melissa apenas pensou quantos sinos de vento ela faria com quase setenta penas de urubu.

Sem mais missões, Melissa não sabia o que fazer com suas tardes ensolaradas. As outras crianças não brincavam com ela porque tinham medo. Melissa não sabia por que, mas todos achavam estranha aquela menina branca como talco e de olhos escuros e fundos, de braços magrelos e pernas finas, que só saia de casa ao fim do dia, nos últimos tempos, desde que acontecera um acidente há três meses, em um banho de banheira...

Na noite de lua cheia, que Melissa simplesmente tinha fascínio, ela recebeu a ordem da mãe para ir dormir mais cedo e que trancasse a porta do quarto e não saísse por nada. Melissa obedeceu e da sua cama, olhava pela janela a bola incrivelmente branca que pendia no alto do céu, iluminando sombriamente a noite densa, cheia de terror que Melissa por algum motivo também fascinava. Pegou no sono com a visão da lua e os pensamentos do pai, ansiando com todas as forças pela noite que adormeceria com a sua voz contando histórias de contos de fadas que ela tanto odiava...

Pela manhã, Melissa foi acordava com os beijos suaves da mãe “Querida, seu pai voltou”, disse radiante e sorridente. A menina arregalou os olhos e o sorriso, saiu correndo e gritando “pai!”. Chegou à cozinha e ali estava ele, sentado à mesa, de costas para ela, mas se virou assim que percebeu a filha imóvel na porta da cozinha. Ele sorriu alegre, como quem sentira uma saudade profunda da filha, com os olhos de quem não acreditava de que a veria novamente. Gregório abriu os braços e a filha caiu neles. A mãe apareceu na cozinha, feliz e quase iluminada com a cena da família reunida novamente. “Senti saudades!”, Melissa apertava o pai. “Eu também senti muita saudade, meu doce”, ele respondeu e a colocou no colo. Gregório estava tão branco como a filha e tinha os olhos fundos e roxos como os dela.

A família e a felicidade de Melissa estavam completas de novo. Se antes não havia notado, depois daquele dia jamais perceberia que não tinha fome ou sede, e só dormia porque era como a morte. Sua mãe jamais lhe contaria que Melissa havia morrido afogada na banheira há três meses, e depois o pai morrera de tristeza. Jamais contaria o ritual que havia feito para trazê-la de volta a uma quase vida, e nunca lhe diria também que as pedras e as penas eram parte do ritual para reviver o pai. Rituais diferentes para mortes diferentes de pessoas diferentes. Melissa jamais cresceria, porém viveria eternamente com o pai, e mesmo depois que a mãe morresse, a trariam de volta para continuar suas quase vidas. Melissa não tomaria mais sorvete com pai, mas ainda ouviria as histórias antes de dormir. Não brincaria mais de bola ao pôr do sol, mas poderia brincar durante as noites que não quisesse dormir. A partir daquele dia preferiu a noite ao dia, as trevas à luz, e a morte à vida.



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#66 Derramei esmalte no meu olho

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Um texto sobre maquiagem

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Sombras e batom da Quem disse, Berenice? foram meus gastos recentes mas com muito  orgulho porque a maquiagem é muito boa. Passei a sombra de manhã e ficou até quando cheguei em casa, quase meia noite, sem re…

Como desenhar mãos?

A coisa que as pessoas mais querem saber logo depois da pergunta "existe vida após a morte?" é "como desenhar mãos". A primeira eu não recebo muito, mas no instagram sempre me pedem pra ensinar a desenhar mãos, e assim como a primeira pergunta, essa segunda eu também não sei a resposta... Porém! Nesse exato instante eu criei uma "fórmula", já que eu não tenho técnica alguma para desenhar.

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2. Daí eu criei um modelo esquelético para essa mão. Sabe o que é uma palheta? Um negócio que se usa para tocar violão e guitarra? Pois é, desenhe uma palheta e desenhe linhas saindo dela, que vão ser os dedos. Lembre que os dedos tem tamanhos diferentes. O mindinho é menor que o anelar, que é menor que o …

Meninas das cores para download!

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Espero que tenham gostado e não esqueçam de me seguir no Instagram @lorenaksa pra ver os desenhos que posto.


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Não estou falando isso porque passei por isso recentemente, até porque não passei. Mas vi alguém passar. E falando sobre isso com alguém que ainda nem conheço (ele sabe, salve Jhonata o/), fiquei pensando (e ele me sugeriu também que escrevesse um texto sobre isso) sobre como mudamos com as coisas que passamos, o que eu julgo natural acontecer, afinal significa que alguma coisa apren…

Um jogo de enigma para meros mortais

O YouTuber Cellbit finalmente voltou com os vídeos de enigma, em que ele joga um joguinho chamado Do Not Believe His Lies (Não acredite nas mentiras dele). Aquele é um puta jogo diíficl, e não tinha pessoa melhor do que ele pra jogar. Se você quiser se sentir burro, assista os vídeos dele.
Felizmente tem um joguinho na Google Play parecido com esse, mas somente no sentido de que você tem que descobrir sozinho como avançar os níveis. A diferença é que absurdamente mais fácil, se comparado com o anterior, mas ainda assim não é tão fácil. O jogo se chama Yellow.

O jogo tem 50 níveis e você tem que descobrir sozinho, como eu já disse, como passar cada nível. Os primeiros são fáceis até, mas depois fica um pouco complicado. O objetivo de cada nível é fazer a tela ficar completamente amarela com os elementos que dispõe na tela. Toca um "uuuh" toda vez que você passa de nível
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O dublador de Jack Sparrow mudou

Assisti Piratas do Caribe: A vingança de Salazar e me deparei com uma coisa que acho horrível: a mudança de um dublador. Sim, eu assisti e assisto filmes dublados. Na primeira respiração de Jack Sparrow eu percebi esse fato que parte meu coração (ou seriam os ouvidos?). Pesquisei e achei uma coisa bem triste, mas calma! O dublador não morreu. Marco Antonio Costa, dublador antes oficial de Jack Sparrow, fez a seguinte postagem no facebook. Coloquei o texto por completo aqui, mas vou deixar o link no final:
Meus amigos e fãs de dublagem, eu venho comunicar que, infelizmente, não dublei o próximo filme da franquia "Piratas do Caribe".  O motivo? Simples. Eu explico. A Disney muitas vezes paga de 20 a 30 vezes mais para atores "Globais" ou mais conhecidos como "Star Talents" para alguns personagens em seus filmes. Quando foram dublar "Procurando Dory", chegaram a pagar 40 vezes mais do que um dublador recebe para dois "Youtubers", pois segun…

Aniversário de Cururupu - MA

A minha cidade natal chega a seus 176 anos de existência. 3 de outubro também é aniversário do meu irmão, e de uma prima minha, e de uma amiga do meu namorado, e mais de outras zilhões de pessoas.

Percebi com isso que não tenho nenhuma foto de Cururupu que eu tenha tirado para postar aqui, céus! Que Cururupuense horrível eu sou, não?

Mas de onde vem o nome Cururupu? A história mais engraçada é que mataram o sapo cururu com uma espingarda. Pu! Entendeu? A mais aceitável é que era um cacique chamado Cururu, morto da mesma maneira, por um português, e a forma que os outros índios espalharam a notícia foi "Cururu pu! Cururu pu!" A verdade eu não sei, mas ambas histórias são engraçadas - menos a parte da morte.

Já faz 4 anos que não moro ali e não tenho a menor vontade de voltar. Não que eu não goste da minha cidade - não é isso. Mas é que eu quero avançar, sabe? Também não quero apodrecer em São Luís.

De qualquer forma, parabéns, Cururupuzinha.


#29 Meus maiores micos

Se eu sou uma pessoa que tem muito azar, é óbvio que pago uns bons micos sempre que posso né? Um exemplo de azar: comprei uma sandália nova e no dia seguinte, na primeira vez que vou usar, o que acontece? Isso mesmo, piso num chiclete. Imagina esse azar somado a micos? Pois é. Vou contar aqui alguns dos piores.
Absorvente Eu estava no retiro da igreja e lá estava o menino por quem eu era apaixonada na época. Ele tava sentado na calçada da escola onde as pessoas se alojavam, e eu passei na frente dele com as minhas coisas (eu ia banhar). Lá cai o absorvente e alguém grita: "Loreeena, caiu aí ó!", BEM NA FRENTE DO MENINO. Eu ajuntei o pacote e então não somente ele, mas todo mundo da igreja sabia que eu estava naqueles dias. Ai que vergonha.
Chamei a pessoa errada Tinha saído de moto com meu pai numa noite, e vi que íamos passar por um grupo de meninas, e nesse meio reconheci de longe uma amiga da escola (pelo menos eu achava que era). Quando passamos por elas gritei, super ent…

Marcadores da Magic Color (resenha)

Como falei no texto dos meus artigos de papelaria, eu comprei um kit de marcadores relativamente caro - uma vez que só vem 12, enquanto os da Faber Castell de 24 cores custa o mesmo preço. Mas aí já temos a diferença. Os marcadores da Magic Color são de álcool, por isso chamados marcadores. Eles são profissionais, e não para crianças, que é o caso da Faber Castell, que são hidrocores ou então canetinhas mesmo, por serem a base de água.
Mas aos interessados em desenho profissional, vamos falar o que eu achei dos marcadores da Magic Color.
Sobre a duração da tinta eu não sei dizer porque uso há pouco tempo. Mas uma ilustradora que sigo disse que eles não duram muito, já fiquei triste :(
Vou usar minha favorite color para fazer o teste.


A outra coisa que notei do pior jeito é que eles borram o lápis. Mas vendo mais vídeos de marcadores, tipo Bic Marking e até mesmo Copic, concluo que a maioria dos marcadores borra o lápis, até mesmo Copic que são os mais caros e melhores do mundo. Fiz o…
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